Ciência: A diplomata de ciência esquecida pela história

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Imagem: O Globo

 

O Globo - by  Natalia Pasternak.

Nenhuma grande descoberta acontece no vácuo. Ideias surgem dentro de um contexto cultural e científico, estimuladas sobre o conhecimento prévio disponível na época. A primeira vacina da história, inventada por Edward Jenner no final do século 18, nasceu quando já se praticava outro tipo de prevenção da varíola, menos seguro, mas eficaz e com o mesmo princípio, de que é possível imunizar contra a doença usando uma versão fraca de seu agente causador.

A técnica pré-vacina, chamada de inoculação, que consistia na aplicação de pus de pessoas com doença leve em cortes superficiais feitos na pele de quem se desejava imunizar, já era usada na China desde o ano 1000. Historiadores reportam que desde 1661, a inoculação — ou variolação — tornou-se oficial na China, e popular em todo o Oriente. Mas para que Jenner pudesse conhecer a técnica e desenvolver sua versão muito mais segura, que usava varíola de vaca e não humana, a inoculação precisou chegar ao Ocidente, mais precisamente, à Inglaterra. E quem trouxe essa prática para o Ocidente foi uma mulher, talvez a primeira diplomata de “vacinação”, Lady Mary Montagu. Como tantas outras mulheres que tiveram um papel essencial na medicina, na ciência e na saúde pública, Mary Montagu seguiu esquecida pela história.

Aristrocrata, feminista, e intelectual, conjunto pouco popular na época, Lady Montagu acompanhou o marido diplomata à Turquia, logo após seu irmão morrer de varíola. Ela própria contraiu a doença e sobreviveu, mas ficou bastante marcada. Na Turquia, soube de um grupo de mulheres que não tinha acesso às escolas de medicina do Império Otomano, mas que realizava partos e atendia doentes. Essa rede feminina fazia inoculação de varíola. Lady Montagu ficou muito impressionada com o sucesso da prática no Oriente, e inoculou seu filho mais velho.

Quando a família retornou a Londres, em 1721, a cidade estava no auge de uma epidemia de varíola. Mary Montagu fez campanha para que a técnica de inoculação fosse adotada, e inoculou publicamente sua filha mais nova. Encontrou, obviamente, incrível resistência da medicina local. Diziam os doutores, o que uma mulher que nem é médica pode saber sobre doenças, e ainda por cima, com uma prática que vem do Oriente? Mais de duzentos anos se passaram, e os argumentos contra a ciência continuam os mesmos: em vez de debater a ideia, debatem-se pessoas. Contra fatos, mobilizam-se preconceitos.

Numa carta datada de 1717, Lady Montagu diz que é inútil falar com médicos. “Eu até tentaria escrever para alguns de nossos doutores sobre o método, se conhecesse algum que acreditasse ser virtuoso o suficiente para abrir mão de grande parte de sua renda pelo bem da humanidade”. Ela dirigiu seus esforços à Família Real, na figura da então princesa de Gales Caroline de Ansbach, casada com príncipe que viria a ser o futuro rei George II. Convencida de que era uma boa iniciativa de saúde pública, Caroline convenceu o governo a fazer um “teste clínico” com prisioneiros, e depois com crianças órfãs. Os experimentos deram certo, e a princesa inoculou suas duas filhas. Os filhos homens foram considerados “valiosos” demais para arriscar.

A técnica só ganhou corpo na Inglaterra na metade do século 18, quando um jovem cirurgião chamado Daniel Sutton padronizou a inoculação e ignorou os médicos de elite. A inoculação não era sem riscos, mas a taxa de mortalidade de 2%-3%, quando comparada com a de 20%-30% da doença natural, não dava margens para dúvidas da relação custo-benefício. Foi neste ambiente que Jenner teve a ideia de usar varíola de vaca. E este ambiente foi consequência da diplomacia científica de uma mulher de visão e coragem. Neste dia da mulher, fica nossa homenagem à grande comunicadora de ciência do século 18, Lady Mary Montagu.

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