Ciência: Os genes que resistem à morte

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Imagem: Notícias ao minuto,

O Globo -  by Roberto Lent.

A morte é um dos temas que mais intrigam a humanidade, desde sempre. Como assim, morrer? Como assim, de repente tudo se apagar e quem era deixa de ser? Para a religião, é o início de uma nova existência, uma passagem evanescente e desconhecida. Para a ciência, é o final da existência de um indivíduo, simples assim.

Não tão simples, como veremos. Os juristas, os legistas e os patologistas precisam determinar o momento da morte. Houve um tempo em que se considerava esse momento como a cessação definitiva dos batimentos cardíacos de uma pessoa. Só que isso pode ocorrer muito aos poucos, e o indivíduo vai morrendo devagarinho. Depois se evoluiu para defini-la como a interrupção irreversível do funcionamento cerebral. Mesma coisa: o cérebro pode funcionar parcialmente, cortar o contato do indivíduo com o ambiente, mas não há como saber o que resta de processamento cognitivo ou afetivo em condições como o estado de consciência mínima, o estado vegetativo ou o coma. E às vezes ocorre um improvável retorno: lembrem de Almodóvar, em Fale com Ela.

Em suma, a morte não é um momento, mas uma transição. Será que se pode estudar essa transição? Conhecer como ela ocorre, como o cérebro vai morrendo aos poucos? A isso se propôs um grupo de pesquisadores americanos, utilizando fragmentos de tecido cerebral obtidos de neurocirurgias para a remoção de focos epilépticos em pacientes graves. Usando esses fragmentos, os pesquisadores compararam como se comportam os genes do cérebro ao longo do tempo, após a remoção cirúrgica dos fragmentos: 1, 2, 12, até quase 30 horas depois.

Fizeram uma análise detalhada da expressão de grande número de genes, e os resultados foram surpreendentes. Os genes, como se sabe, são formados de DNA (ácido desoxirribonucleico), e produzem moléculas parecidas menores de RNA (ácido ribonucleico), que por sua vez codificam a multidão de proteínas que compõe o nosso corpo. Há genes para tudo: alguns se encarregam da manutenção básica de todas as células, outros são específicos para tipos e subtipos celulares, como por exemplo os neurônios e as suas companheiras inseparáveis, as células gliais.

O que os pesquisadores descobriram é que os genes de manutenção permanecem ativos ao longo das 24 horas subsequentes à “morte”. Enquanto isso, os genes responsáveis pela atividade dos neurônios, principalmente os das sinapses, estruturas mediadoras da conversa entre os neurônios, vão diminuindo de atividade gradualmente. Tudo bem, era o esperado. O declínio da expressão gênica corresponde ao desaparecimento das funções dos neurônios, e à sua degeneração gradativa durante as 24h depois da cirurgia. Mas vejam bem: nada súbito, tudo devagar. Morrendo aos poucos.

Daqui de fora, os profissionais de saúde tentam desesperadamente, e nem sempre conseguem reverter o inexorável desligamento gênico. Mas lá dentro do cérebro, o mais surpreendente foi a descoberta de verdadeiros genes-zumbis, que após a morte aumentam de atividade durante 24 horas, para só então desistir e desligar de vez. São genes das células gliais, ligados em modo emergência pelo espectro da morte, na luta para restaurar a função dos neurônios. Os genes dessas células reagem à iminência do fim definitivo aumentando a síntese de proteínas, o que leva essas células a mover-se mais, produzir prolongamentos, secretar substâncias. Trabalho vão. Os genes-zumbis das células gliais não conseguem evitar a morte dos seus companheiros, os neurônios.

O estudo dos pesquisadores é importante porque abre portas de conhecimento sobre essa misteriosa transição chamada morte. Os genes de manutenção permanecem na espera enquanto os genes-zumbis das células gliais tentam religar os sofridos genes dos neurônios já em fase de degeneração. Conhecendo o processo, será possível conseguir reverter em 24 horas a cadeia de processos que leva à parada de tudo?

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