Metaverso encontra a medicina

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Imagem: ISTOÉ Dinheiro (Divulgação).

Publicado em 17/02/2022.

Pelo menos agora não preciso explicar o que fazemos.” É assim que o fundador e CEO da MedRoom, o biólogo Vinícius Gusmão, 29 anos, justifica e brinca ao falar de seu negócio, uma plataforma tecnológica de ensino híbrido assíncrono na área de saúde, que ganhou uma introdução global hype muito mais fácil na voz de Mark Zuckerberg e seu Metaverso. A MedRoom oferece aulas dentro do dito mundo digital, em que você coloca os óculos de realidade virtual e se transporta para um cenário em que o corpo humano está ali, flutuando, para ser analisado por estudantes de medicina, como que desembrulhado da pele. Obrigado, Mark!

A empresa iniciada em 2015 pelo também sócio, o CTO Sandro Nhaia, 41, foi encubada no Vale do Silício, no Singularity Universe, na Califórnia, em 2018. De tão útil e inovadora, o Hospital Israelita Albert Einstein foi um dos primeiros investidores entusiasmados, ajudando-a na validação inicial do projeto. Até chegar ao atual estágio, os dois jovens passaram por inúmeras reuniões, ouviram muitos médicos, professores e instituições. Nhaia, especialista em computação gráfica, trabalhou no projeto Homem Virtual da Faculdade de Medicina da USP de 2004 a 2008, com modelagem de morfologia e anatomia em 3D e animação. Junto de Gusmão, partiu na busca de captação de investimentos e equipe para desenvolver um produto complexo: cirurgias no mundo virtual. Claro que tiveram de brecar o carro logo no primeiro sinal amarelo. “Foi um leve e inteligente ajuste. Diminuímos a complexidade, ficamos somente nos soft skills, nos primeiros anos de aprendizado na faculdade de medicina. Era um caminho mais fácil e rentável, pois o que fazemos hoje já pede muita precisão e hiper-realismo”, disse Gusmão à DINHEIRO. “Passar para uma simulação de cirurgia de coração, de como ele reagiria a cada um dos vários caminhos de um procedimento, seria um passo além de nossas pernas”, afirmou.

A conclusão veio porque até mesmo em uma instituição de ponta no Brasil, como o Einstein, houve resistência quando a dupla usou jovens termos como “gameficação”, que é a base do que oferecem para as cerca de 40 escolas de medicina em que estão agora. No fundo, é um jogo, pois o estudante é avaliado ao entrar nesse mundo, apontar órgãos, passar por quiz dentro da plataforma. Essa simplificação permitiu que, com um computador dedicado e óculos de Realidade Virtual, o usuário já estivesse dentro de um cenário com um corpo humano masculino ou feminino, com 8 mil estruturas e 12 sistemas completos, com cores e texturas exatas. “Muito professor acha que sabe anatomia. Uma vez um me perguntou, olhando o órgão, no sistema, onde estavam as veias. Ele não estava identificando, pois no mundo real todas são vermelhas e nos livros, as separam das artérias pintando-as de azul”, afirmou Gusmão.

Mas mergulhar nesse mundo metaversiano não é algo tão simples, como o tempo vai mostrar. O computador para a Realidade Virtual tem de ser bom. Se não for, a imagem nos óculos começa a ficar lenta e o aluno, enjoado. “Se você vira a cabeça e a imagem não acompanha, e de repente ela vem junto, isso, para o cérebro, quer dizer que você está envenenado”, disse o CEO. Ele diz que a dissonância de informação brinca com o labirinto, com a percepção. “Você passa mal. É o motion sickness. Eu mesmo já fiquei um dia inteiro ruim. É preciso ter usabilidade, mas também se preocupar com a saúde do estaudante.” A solução é ficar no máximo 20 minutos com os óculos.

Em poucos anos, depois de um investidor Anjo e Seed que acumularam R$ 3 milhões em aportes, a startup chamou atenção em 2020 do grupo Ânima Educação, que tem oito marcas de ensino superior e mais de 100 mil alunos pelo Brasil. Foi adquirida, mas manteve toda sua estrutura. Hoje a MedRoom tem 30 funcionários e a validação científica e médica é dada por terceiros, seja em trabalhos para a Bayer ou Roche, por exemplo, em que essas instituições colaboraram com as várias etapas de confirmação dos projetos, ou pela Inspirali, braço de saúde da Ânima. “Agora temos a Realidade Virtual conversando diretamente com a estratégia educacional de um ensino superior”, disse Gusmão. Para ele, no trajeto de deixar bem azeitado o conceito, vender a aplicação separada não adiantaria muito. Tinham de ter também um processo acadêmico.

“Queremos escalar além da área da saúde, para outros setores do conhecimento, como arquitetura, ou veterinária, que está a um passo de distância. Isso está dentro de nosso road map.” No fundo, estão mirando para os mesmos lugares, só que mais rápidos. “Chegaremos lá, incluindo procedimentos cirúrgicos.

 

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