Basileia, na Suíça, continua sendo um dos mais importantes polos farmacêuticos do mundo, sustentada por gigantes como Roche e Novartis, além de uma base sólida de talentos e investimentos bilionários em inovação. No entanto, a cidade enfrenta o desafio de se reinventar para preservar sua posição diante de uma indústria em rápida transformação. Informou a Swissinfo.
Poucas cidades têm sua identidade tão entrelaçada a um setor quanto Basileia e a indústria farmacêutica. As torres da Roche e o campus da Novartis dominam a paisagem urbana, símbolos de uma história que começou há quase dois séculos com corantes químicos e evoluiu para terapias genéticas e celulares.
Segundo especialistas, essa tradição é ao mesmo tempo uma força e uma vulnerabilidade. O cantão da Basileia ostenta um PIB per capita muito superior ao da média suíça e responde por cerca de 36% das exportações nacionais, majoritariamente de produtos farmacêuticos. Mas a dependência de um único setor expõe a região às turbulências globais.
A inteligência artificial, a personalização dos tratamentos e a ascensão de novos polos — como Boston, Cambridge, Leiden e até cidades emergentes na China e nos EUA — intensificam a concorrência. “Houve uma enorme disrupção nos últimos dois anos, impulsionada por mudanças geopolíticas drásticas”, afirmou Joanne Henderson, da CBRE, em relatório sobre polos de ciências da vida.
Para enfrentar esse cenário, Basileia tem investido pesado em inovação. A criação de parques tecnológicos, incubadoras e programas de aceleração como o BaseLaunch e o DayOne já apoiou dezenas de startups, atraindo mais de um bilhão de francos em investimentos adicionais. Em 2022, foi inaugurado um parque nacional de inovação com área equivalente a oito campos de futebol, que deve dobrar de tamanho nos próximos anos.
Além disso, incentivos fiscais e subsídios para pesquisa e desenvolvimento foram ampliados. Em 2025, os eleitores aprovaram um programa que destina entre 150 e 500 milhões de francos anuais para fomentar inovação, incluindo descontos em salários de P&D e ensaios clínicos.
A estratégia tem dado resultados: hoje, a região abriga cerca de 800 empresas de ciências da vida, contra 600 há uma década. Startups como a americana Revolution Medicines e a chinesa BeOne Medicines escolheram Basileia para expandir suas operações.
Pressões externas
Apesar dos avanços, a cidade enfrenta pressões geopolíticas. Roche e Novartis anunciaram investimentos bilionários nos EUA e na China, em resposta a tarifas e políticas de incentivo locais. A participação da Suíça no desenvolvimento global de medicamentos permanece estagnada em menos de 7%, enquanto a China já ultrapassa 30%.
Em discurso recente, Thomas Schinecker, CEO da Roche, alertou: “Muitos dos principais atributos que tornaram a Suíça forte no passado já não existem. O perigo é acomodar-se.”
O Parlamento suíço, atento às mudanças, aprovou uma moção para criar uma estratégia farmacêutica nacional, reforçando que o setor é vital não apenas para Basileia, mas para toda a economia do país.
Com mais de 33 mil profissionais atuando no setor e uma qualidade de vida que atrai talentos globais, Basileia ainda se mantém como referência mundial. Mas o desafio é claro: transformar tradição em inovação contínua, garantindo que o polo suíço permaneça competitivo em um cenário global cada vez mais fragmentado e disputado.
Como resume Maria Luisa Brooke, guia turística da cidade: “Basileia sempre demonstrou capacidade de evoluir quando o mundo muda. A cidade sabe que, com uma boa concentração de competências, é possível ter novas ideias.”
Comentários