Valor Econômico
Jornalista: Ediane Tiago
27/08/20 - As fissuras do setor da saúde foram escancaradas no momento em que o novo coronavírus tomou o rumo da Europa. A incapacidade para receber doentes nos hospitais, a falta de equipamentos de proteção individual - como máscaras, luvas e aventais -, e a dificuldade na compra de respiradores se repetiram pelos países atingidos. Uma a uma as nações se viram diante de um vírus que confrontou a organização industrial e a capacidade de resposta científica, além de obrigar formuladores de políticas públicas a decifrar a relação entre o acesso à saúde, a economia e a desigualdade social.
Em nota técnica publicada pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), as pesquisadoras Fernanda de Negri e Priscila Koeller reconhecem que a saída da crise sanitária, econômica e social provocada pela covid-19 dependerá da produção de conhecimento e de novas tecnologias. “A covid-19 veio para mudar tudo, inclusive a forma como pensamos a saúde e a ciência”, comenta Jorge Guimarães, diretor-presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial.
Para Fernanda e Priscila, será necessário grande esforço no fomento à pesquisa e inovação para mitigar os efeitos de pandemias. Não é à toa que países como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e Alemanha despejaram bilhões de dólares em seus sistemas de inovação para mobilizar universidades, instituições de pesquisa e empresas. O objetivo imediato, claro, é encontrar uma vacina ou tratamento eficiente para a covid-19. Mas as pesquisadoras também apontam a preocupação de investir na adoção de medidas consistentes - sejam elas sanitárias, econômicas ou sociais - para combater danos de curto, médio e longo prazos.
Guimarães destaca ainda que países despreparados para o enfrentamento básico das questões de saúde vão exigir maior coordenação para produzir tecnologias em áreas que vão da biociência às ciências sociais. No país - onde, segundo o Instituto Trata Brasil, 35 milhões de pessoas não têm acesso à água tratada -, a questão sanitária ocupa espaço relevante nas pautas políticas e científicas. A inovação, segundo esta análise, terá de encontrar pontos de convergência para fornecer à população melhores condições de cuidar da própria saúde.
A prevenção e o autocuidado são os pilares da saúde do futuro, ou a 4.0, que vêm sendo discutida exaustivamente na última década pelo setor. “Falamos do uso de inteligência artificial, mas ainda não chegamos a uma vacina para a dengue e o saneamento básico é artigo de luxo”, comenta Guimarães.
Para ele, o Brasil é exemplo de que não se trata apenas de lavar as mãos e usar o álcool em gel. “Temos de entender que esta não é a primeira e nem será a última pandemia. Foi a que nos pegou mais desprevenidos”, ressalta.
No país, diz Guimarães, produzimos poucos fármacos, biofármacos e vacinas. Apesar de manter uma área de pesquisa competente, representada pelas universidades e institutos como Butantan e Fiocruz, são escassos os projetos privados nas áreas de ciências biológicas. “Nessa crise toda, onde estão os projetos brasileiros das grandes farmacêuticas?”, questiona.
Geciane Porto, vice-coordenadora da Auspin - agência de inovação da Universidade de São Paulo (USP) - lembra que a comunidade científica se mobilizou para enfrentar a covid-19. “Apesar dos cortes severos em orçamentos e bolsas efetuados pelo governo federal, ninguém cruzou os braços”, diz. Os projetos para o futuro também ganharam senso de urgência. De acordo com ela, fortalecer o ecossistema da área de saúde é a única alternativa para ampliar o acesso e preparar as bases para combater pandemias. Como exemplo, ela cita o edital lançado pela USP para atrair projetos privados em Ribeirão Preto (SP) - polo de geração de conhecimento na área da saúde.
O edital contempla a cessão onerosa de seis lotes capazes de abrigar empresas de médio e grande porte junto ao Supera Parque Tecnológico, infraestrutura de inovação presente na cidade. “O objetivo é instalar centros de pesquisa e desenvolvimento”, explica Geciane. A ideia é integrar setor privado, a universidade e as startups incubadas no Supera. “Há infraestrutura de laboratórios, terreno disponível e capital humano - aspectos fundamentais para a produção de inovações”, completa.
Na área industrial - que responde por equipamentos médicos e de proteção - a saída está no avanço da indústria 4.0, capaz de trazer maior flexibilidade às cadeias produtivas e permitir a rápida migração da produção para itens essenciais. “É uma nova organização industrial”, explica Rafael Navarro, presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei).
Ele acredita que as decisões sobre os investimentos em plantas industriais passam a questionar um cenário de “flexibilização da planta para atender a demandas urgentes e imprevisíveis”, explica.
Marcos Dillenburg, diretor de tecnologia e operações da Novus, empresa gaúcha do segmento de automação industrial, mudou a rotina da fábrica para responder às demandas imediatas do sistema de saúde. O primeiro passo foi o de engajar a empresa em uma iniciativa para a manutenção de respiradores. “O objetivo era o de contribuir com a sociedade”, diz.
A ação estreitou os laços da empresa com o Instituto Senai de Inovação em Soluções Integradas em Metalmecânica (ISI SIM), unidade Embrapii localizada na cidade de São Leopoldo (RS). “Nós temos projetos de indústria 4.0 com eles e fomos estimulados a criar soluções para o hospital 4.0 - aplicando softwares, sensores e sistemas de inteligência artificial”, explica Dillenburg.
As conversas renderam parceria que atendeu ao edital emergencial resultante publicado pela Emprapii, Senai e Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). Para combater a pandemia, foram aplicados R$ 40 milhões - entre recursos públicos e privados - em 60 projetos destinados à prevenção, diagnóstico e tratamento da covid-19.
No caso da Novus, foram aplicados R$ 600 mil - a maior parte pela Embrapii - para criar um protótipo que utiliza inteligência artificial no diagnóstico da covid-19. O equipamento é utilizado na rotina de triagem em hospitais e tem capacidade de medir, de maneira remota, sinais vitais do paciente. Também aplica um questionário sobre os sintomas. “Trabalhamos em algo para auxiliar quem está na linha de frente”, afirma Dillenburg. Ele admite, no entanto, que sem o capital da Embrapii, não seria possível entrar na empreitada. “Nesta crise, os orçamentos ficam limitados. O apoio do setor público torna-se mais relevante nesta hora”, comenta.
Maria Antonieta Cervetto, presidente da Cecil - empresa tradicional na transformação de cobre -, acelerou, com ajuda do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), um projeto para utilizar nanopartículas de cobre contra o coronavírus. “A capacidade bactericida do cobre é conhecida há séculos. E funciona também para eliminar vírus”, explica. O desafio de Antonieta estava em desenvolver aplicações para usar o metal, de forma prática e barata, nas superfícies. “É irreal pensar em salas cobertas com chapas de cobre”, diz.
A tecnologia de nanoencapsulamento permite que o cobre seja aplicado em tintas e revestimentos, tornando as superfícies estéreis. Entre as aplicações, Antonieta cita a criação de um adesivo com as nanopartículas. “É possível recobrir corrimãos, maçanetas, catracas e barras”, diz. A solução pode atender, além de hospitais, o segmento de transporte público.
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