Operação de R$ 3,2 bilhões entra em nova fase de avaliação após órgão antitruste identificar riscos à concorrência em segmentos específicos do mercado farmacêutico
A aquisição da farmacêutica Medley pela EMS, uma das maiores movimentações do setor farmacêutico brasileiro nos últimos anos, ganhou um novo capítulo após o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) decidir aprofundar a análise da operação. A medida pode ampliar o prazo para a conclusão do negócio, avaliado em aproximadamente R$ 3,2 bilhões.
A decisão da Superintendência-Geral do Cade foi tomada após a identificação de pontos considerados sensíveis em mercados específicos de medicamentos, especialmente aqueles destinados a tratamentos de infertilidade e ao combate à enxaqueca. Embora a autarquia reconheça o elevado nível de concorrência existente na indústria de genéricos, o órgão entende que ainda há dúvidas sobre os possíveis impactos da concentração de mercado gerada pela incorporação da Medley pela EMS.
Preocupação concentrada em segmentos específicos
Segundo a análise preliminar da autoridade antitruste, os maiores riscos competitivos estão relacionados aos medicamentos estimulantes da ovulação, utilizados em tratamentos de fertilidade, e a determinados remédios para enxaqueca.
No segmento dos estimulantes da ovulação, a participação conjunta das empresas poderá atingir percentuais entre 90% e 100% das unidades comercializadas. Entre os produtos analisados está o Clomid, medicamento amplamente conhecido nesse mercado.
Já na categoria de medicamentos para enxaqueca, que inclui substâncias como a naratriptana, a fatia combinada da EMS e da Medley poderá variar entre 50% e 60% das vendas em volume.
Para o Cade, o principal desafio é avaliar se os concorrentes atualmente presentes nesses nichos possuem capacidade suficiente para impedir eventuais aumentos de preços ou perda de competitividade após a conclusão da operação.
Cade quer mais garantias sobre a concorrência
Apesar de reconhecer características tradicionalmente favoráveis à competição no mercado de genéricos, como a presença de diversos fabricantes, a disponibilidade de capacidade produtiva e a baixa fidelidade dos consumidores às marcas, a autarquia entende que ainda faltam elementos concretos que comprovem a rápida entrada de novos concorrentes nesses segmentos mais concentrados.
Na avaliação dos técnicos do órgão, é necessário aprofundar os estudos para verificar se os atuais participantes do mercado teriam condições de exercer pressão competitiva capaz de neutralizar uma eventual posição dominante da nova estrutura resultante da aquisição.
Essa etapa adicional inclui pedidos de informações complementares e diligências junto às empresas envolvidas e aos demais agentes do setor.
Maior parte da operação não enfrenta resistências
Embora a investigação tenha ganhado novos contornos, a análise realizada até o momento mostra que as preocupações do Cade estão restritas a uma pequena parcela do negócio.
A operação engloba um portfólio de 253 medicamentos distribuídos em 120 mercados avaliados pela autoridade concorrencial. Em cerca de 70 desses mercados, a autarquia concluiu que existe baixa sobreposição entre a atuação da EMS e da Medley ou pouca alteração nos níveis de concentração após a fusão.
Mesmo nos mercados considerados mais concentrados, a presença de concorrentes relevantes foi vista como um fator capaz de manter a competitividade em boa parte dos casos, com exceção dos segmentos ligados aos tratamentos de fertilidade e aos medicamentos específicos para enxaqueca.
O cenário indica que o negócio não enfrenta uma rejeição generalizada por parte do Cade, mas sim um escrutínio maior em áreas consideradas estratégicas para a proteção da concorrência e dos consumidores.
Disputa acirrada pela Medley
A compra da Medley foi anunciada em março e rapidamente chamou a atenção do mercado farmacêutico nacional. O ativo despertou interesse de grandes grupos do setor, incluindo Aché, Hypera, Biolab e a indiana Sun Pharma.
Ao final do processo competitivo, o Grupo NC, controlador da EMS e pertencente à família Sanchez, saiu vencedor da disputa. A aquisição será realizada por meio da Novamed, subsidiária da EMS responsável pela transação.
Caso receba aprovação definitiva, a negociação consolidará ainda mais a posição da EMS entre os maiores fabricantes de medicamentos do Brasil, ampliando significativamente seu portfólio de genéricos e reforçando sua presença em importantes categorias terapêuticas.
Impactos para o mercado
Especialistas avaliam que a decisão do Cade demonstra uma postura cada vez mais cautelosa diante de operações de grande porte no setor de saúde, especialmente quando envolvem categorias de medicamentos que podem apresentar elevada concentração de mercado.
A tendência é que o órgão busque assegurar que a consolidação empresarial não resulte em redução da concorrência, limitação de opções para pacientes ou aumento de preços, principalmente em áreas ligadas a tratamentos essenciais.
Enquanto a análise segue em andamento, o mercado acompanha com atenção os próximos passos do Cade. A expectativa é que a nova fase da investigação traga maior clareza sobre os impactos concorrenciais da operação e determine se a aquisição será aprovada integralmente, aprovada com restrições ou sujeita a eventuais remédios concorrenciais.
Fonte: InvestNews - Texto adaptado e ampliado por Joni Mengaldo para DikaJob
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