Tóquio — A farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk intensifica sua estratégia para ampliar o acesso a medicamentos contra a obesidade no Japão, mirando diretamente pacientes dispostos a pagar do próprio bolso por terapias inovadoras como o Wegovy. A iniciativa surge em meio a um cenário de forte demanda global, mas de acesso limitado no mercado japonês, onde apenas 14 mil pessoas recebem tratamento, apesar de milhões serem elegíveis. Informou a Bloomberg.
Segundo Keisuke Kotani, chefe da unidade japonesa da empresa, a aposta em tratamentos autofinanciados busca preencher a lacuna criada por rígidas regras de reembolso e critérios clínicos restritivos. “Há muitas pessoas que não têm acesso ao tratamento por vários motivos. O desafio é encontrar a melhor forma de atender os pacientes de qualquer maneira possível”, afirmou Kotani durante encontro em Tóquio.
O Japão impõe barreiras significativas ao uso de medicamentos GLP-1, exigindo que pacientes apresentem índice de massa corporal (IMC) de 35 ou mais, ou IMC de 27 acompanhado de condições relacionadas e falha em dietas e exercícios. Essas exigências limitam o alcance do semaglutide, princípio ativo do Wegovy, e também do Zepbound, da concorrente Eli Lilly.
Apesar disso, a Novo Nordisk vê espaço para crescimento. O Wegovy foi lançado no país em fevereiro de 2024 e já está disponível em cerca de 1.200 estabelecimentos, número ainda pequeno diante dos mais de 100 mil hospitais e clínicas japonesas. Estimativas da própria farmacêutica apontam que cerca de 6 milhões de pessoas atendem aos critérios de tratamento, enquanto 26,6 milhões são classificadas como obesas.
A estratégia da empresa inclui campanhas de conscientização em saúde pública e parcerias institucionais. Neste mês, a Novo Nordisk firmou acordo com a Sociedade Japonesa para o Estudo da Obesidade, com o objetivo de ampliar a compreensão clínica da doença e colaborar com governos locais na implementação de programas comunitários.
No mercado norte-americano, a companhia já atua com modelos de venda direta ao consumidor, oferecendo o Wegovy injetável a partir de US$ 199 mensais e a versão em comprimidos a partir de US$ 149. A Eli Lilly segue caminho semelhante desde 2024. A expectativa é que o Japão se torne o próximo palco dessa expansão, ainda que com adaptações às particularidades regulatórias locais.
Com crescimento de 5,4% na receita da unidade japonesa em 2025, impulsionado por terapias para obesidade e doenças raras, a Novo Nordisk projeta alcançar dois dígitos neste ano e triplicar o número de pacientes tratados até 2030. Kotani reforça que o foco não está em usos cosméticos, mas em garantir que pessoas com necessidade clínica tenham acesso às terapias.
A movimentação da farmacêutica reflete uma tendência global: empresas de saúde buscam alternativas para superar barreiras regulatórias e ampliar o alcance de tratamentos em mercados ainda pouco explorados. No Japão, onde a obesidade é frequentemente subestimada como problema de saúde pública, a aposta da Novo Nordisk pode redefinir o futuro do setor.
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