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Folha de S.Paulo
Colunista: Tatiana Prazeres


21/02/20 - Um drone sobrevoa a cidade fantasma de Wuhan. Entre prédios altos e avenidas desertas, localiza um jovem na rua. O drone se aproxima. "Ei, você, como ousa sair de casa sem máscara? Pois coloque uma", diz a voz firme.

O aparelho então chega mais perto do rapaz e libera-lhe uma máscara, prontamente posta em uso. Guiado remotamente por um policial, o drone avança. Localiza um menino jogando futebol e diz: "Pequeno Messi, volte logo para casa". No vídeo divulgado pela rede chinesa CGTN, o drone segue patrulhando a cidade, reprimindo os pouquíssimos que desrespeitam as regras.

Alguns drones são capazes não apenas de distribuir máscaras, mas também de medir a temperatura à distância. Num outro vídeo do jornal oficial People's Daily, um drone mede a febre de duas pessoas em uma varanda, agilizando o diagnóstico e evitando o contato delas com outros.

Tecnologia made in China, feita sob encomenda para a crise de proporções épicas. Nenhum país como a China deu um salto tecnológico desta altura tão rapidamente. Uma única empresa chinesa, a DJI, tem hoje mais de 70% do mercado mundial de drones, por exemplo.

Em pouco mais de 40 anos, a China reconstruiu universidades destruídas pela revolução cultural, investiu em inovação, abriu espaço para iniciativa privada e passou a ocupar posições de destaque em áreas como inteligência artificial, tecnologia eólica e 5G.

Não surpreende que o governo recorra a tecnologia e a empresas do ramo para combater o coronavírus. Alibaba e Tencent, gigantes da tecnologia digital, trabalham em aplicativos para ajudar autoridades a rastrear os deslocamentos e monitorar a saúde dos indivíduos. Em Hong Kong, pessoas obrigadas a cumprir quarentena em casa usam pulseiras eletrônicas para facilitar o controle das autoridades.

Num discurso recente, Xi Jinping defendeu que o sistema de prevenção e combate seja aperfeiçoado. Referiu-se explicitamente a tecnologias digitais como big data, inteligência artificial e computação na nuvem. Quer aplicá-las a áreas como monitoramento de epidemias, rastreamento da origem de agentes patogênicos, prevenção e tratamento de surtos e alocação de recursos públicos.

Muitos fora da China verão com desconfiança o emprego da tecnologia nesta crise, sobretudo em função de questões relacionadas à privacidade.

Por outro lado, vivendo o drama na pele, poucos na China questionariam a ideia de que a tecnologia deva ser empregada para ajudar a combater a crise.

Suspeito que, para a grande maioria das mais de 700 milhões de pessoas cujas vidas estão sendo perturbadas por restrições ao ir e vir, preocupações muito concretas com saúde, segurança e conveniência se sobrepõem a inquietações sobre privacidade.

Se a tecnologia acelerar a solução, se mitigar o drama humano, social e econômico, seria um grande desperdício abrir mão dela. Para os chineses, é apenas no pós-crise que poderão surgir dilemas reais. O coronavírus passará, e a tecnologia de controle da vida das pessoas ficará. Alguns mais atentos observam que sistemas de monitoramento instalados para a Olimpíada de Pequim em 2008 seguem em uso até hoje.



Por um motivo que ninguém contestará, o governo aperta agora os parafusos da máquina de controle e a dota de novas capacidades. A questão é o uso que se dará ao aparato quando as razões excepcionais de hoje deixarem de existir. Por ora, focados em resolver a crise, os chineses abraçam as novidades.

(*) Tatiana Prazeres é Senior fellow na Universidade de Negócios Internacionais e Economia, em Pequim, foi secretária de comércio exterior e conselheira sênior do diretor-geral da OMC.

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