Por Joni Mengaldo
A trajetória de Cris Coelho, General Manager (GM) na Knight Therapeutics, é um estudo de caso sobre a evolução da liderança na Indústria Farmacêutica. Com mais de 27 anos de carreira no setor, ela personifica a transição da excelência tática e da execução para a maestria estratégica e a liderança por influência, um caminho que se tornou imperativo no ambiente corporativo matricial moderno.
A tática pioneira e o foco no resultado
Formada em Química Industrial, Cris iniciou sua jornada profissional cedo no laboratório, mas logo migrou para a área comercial. O ponto de partida na indústria farmacêutica foi na Zeneca, há 27 anos, onde ingressou como representante.
Sua veia executiva e o perfil competitivo se manifestaram desde cedo: ainda no início da carreira, ela foi escalada para um projeto piloto que, na prática, inaugurou uma posição de “Acesso ao Mercado” no setor público, focada no produto Zoladex. O projeto deu tão certo que, em dois anos, sua vaga solo se transformou em uma equipe de oito pessoas — uma prova de sua capacidade de transformar estratégia em resultados tangíveis.
A experiência foi consolidada em passagens-chave, incluindo 10 anos na Roche, onde atuou com imunoterapia e biológicos, lançou duas marcas e gerenciou equipes de acesso e comercial. Mesmo atuando na direção de empresas menores, como na Mundipharma, ela manteve a responsabilidade pela execução, cobrindo Acesso, Comercial e Marketing. A executiva ainda conta com passagens como Diretora pelo Aché e pela Abbott.
A Liderança por Influência no Modelo Matricial
O grande desafio na carreira, segundo Cris, foi a mudança de Gerente Nacional para posições executivas de Diretoria e, posteriormente, Gerente Geral. Para quem sempre teve uma "veia muito forte de execução" e era reconhecida pela capacidade de "tocar o bumbo" e "fazer acontecer", a virada foi entender que a competência de execução, por si só, não alça o profissional a outros patamares.
No cargo de GM, em uma estrutura altamente matricial, onde áreas vitais como Finanças, RH e Médica reportam de forma pontilhada (dotted line) para fora, a autonomia, paradoxalmente, se torna mais difícil.
"Talvez eu, como diretora, tivesse mais autonomia para tomar algumas decisões até do que até hoje. Porque realmente as minhas decisões, elas afetam muitas áreas que eu preciso engajar".
A chave para a gestão da organização se tornou a influência, exigindo um aprendizado constante em engajar pares e times que não reportam diretamente, fazendo com que todos acreditem na ideia, e não apenas no cargo.
A sabedoria da comunicação e o desenvolvimento pessoal
A busca por resultados, ela enfatiza, é a base para conseguir bons investimentos, e "nenhum tipo de liderança sobrevive à falta de resultado". No entanto, a sabedoria de sua jornada reside nos aprendizados de relacionamento e autogestão.
Na posição de líder máxima do país, Cris aprendeu que seu estilo, energia e até mesmo um "dia ruim" contaminam fortemente o time. O peso do que é dito requer uma vigilância constante.
"Às vezes, uma crítica, alguma coisa que eu emito vira fator final... A comunicação é isso, né? O que o outro entende".
Como uma líder transparente e próxima do campo, ela precisou aprender a "dosar a transparência", garantindo que uma opinião casual não se tornasse um fator desmotivador. Sua gestão de tempo também evoluiu, priorizando "colocar as pessoas para dentro da minha agenda". Seu maior orgulho, no fim, é ver as pessoas que trabalham com ela em posições de destaque, seja um verdadeiro indicador da excelência de sua liderança.
Visão de futuro e plano de carreira
Olhando para o futuro, Cris Coelho demonstra uma visão estratégica ampliada. Atualmente, além de liderar a operação brasileira, ela cuida do México e é responsável pela área de Business Intelligence (BI) para a América Latina. Este novo foco no BI e na expansão para a Latam reflete o feedback que recebeu para "ampliar um pouco a minha visão, tirar um pouco a visão só do Brasil".
Para a nova geração de líderes, ela deixa um conselho didático, prático e motivador:
- Faça um plano: Identifique seus pontos fortes e fracos. Minimize os pontos fracos, mas foque muito naquilo que você é bom.
- Invista em Formação: O estudo faz a diferença. Busque cursos curtos e específicos, como "finanças para não financeiros", para preencher lacunas de conhecimento.
- Monitore e Busque Mentores: Observe o currículo e a trajetória de pessoas que você admira.
- Assuma a Carreira: A carreira é sua. Não espere ser promovido apenas na empresa atual, busque oportunidades e assuma o protagonismo do seu desenvolvimento.
A jornada de Cris Coelho, do laboratório à vanguarda da gestão, é a prova de que o sucesso executivo é construído sobre a base sólida da execução, mas é sustentado, e de fato ascende, pela sabedoria de liderar através da influência.
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Knight Therapeutics é uma empresa farmacêutica especializada pan-americana (ex-EUA), focada na aquisição e licenciamento, marketing e comercialização de produtos farmacêuticos inovadores de prescrição médica no Canadá e na América Latina. Com sede em Montreal, a Knight opera no Canadá e em 10 países da América Latina e emprega mais de 700 pessoas em todo o mundo. As ações da Knight Therapeutics Inc. são negociadas na TSX sob o símbolo GUD.
Entrevista foi conduzida por Joni Mengaldo.
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